Negociação
CazéTV, Bets e Caixa: quando o Plano B vale milhões!
Durante os últimos anos, as casas de apostas se tornaram algumas das marcas mais presentes no futebol brasileiro. Camisas de clubes, placas nos estádios, campeonatos, programas esportivos e transmissões passaram a disputar os investimentos bilionários desse mercado.
A CazéTV também fez parte desse movimento. Na Copa do Mundo de 2026, marcas do setor de apostas estiveram entre os anunciantes de suas transmissões. Mas uma mudança no ambiente regulatório alterou o cenário e obrigou empresas de mídia, patrocinadores e propriedades esportivas a rever estratégias.
E é justamente aqui que esse caso deixa de ser apenas uma história sobre futebol, publicidade ou bets e passa a ser uma excelente aula de negociação. Porque existe uma pergunta que todo negociador deveria fazer antes de entrar em uma negociação importante:
Se esse acordo não acontecer ou deixar de existir amanhã, o que eu faço?
Na Negociação 7.0, chamamos essa resposta de MACNA: Melhor Alternativa em Caso de Não Acordo.
Quando o cenário muda, a preparação aparece
Uma negociação pode parecer excelente enquanto tudo acontece conforme o previsto. O cliente continua comprando. O fornecedor continua entregando. O patrocinador continua investindo. O contrato continua sendo renovado.
O problema começa quando alguma variável externa muda.
Pode ser uma nova legislação. Uma crise econômica. A entrada de um concorrente. Uma mudança tecnológica. Uma fusão. Uma alteração na estratégia do cliente, ou uma decisão governamental capaz de transformar rapidamente as condições de determinado mercado.
Foi o que aconteceu com a publicidade das bets.
Com a mudança regulatória, o mercado esportivo precisou reorganizar espaços publicitários e relações comerciais. Ao mesmo tempo, as Loterias Caixa ganharam maior exposição nas transmissões da CazéTV.
É importante fazer uma distinção: isso não significa que a Caixa simplesmente apareceu para substituir as bets. A relação comercial entre Caixa e CazéTV já existia. O que mudou foi o contexto e, consequentemente, o valor estratégico dos espaços disponíveis.
E esse detalhe torna o caso ainda mais interessante para quem estuda negociação.
MACNA não se constrói quando o problema aparece
Um dos erros mais comuns em negociação é pensar na alternativa somente depois que o acordo principal começa a dar errado. Nesse momento, muitas vezes, já é tarde. Imagine uma empresa que tenha 80% de seu faturamento concentrado em um único cliente. Enquanto esse cliente compra, a situação parece confortável. Mas imagine que amanhã ele comunique que trocará de fornecedor.
Qual será o poder de negociação dessa empresa?
Provavelmente muito menor.
Agora pense em outra empresa que, apesar de possuir um grande cliente, desenvolveu outros mercados, manteve relacionamento com potenciais compradores, diversificou canais e construiu alternativas. Quando o cliente ameaça sair, as duas empresas podem estar discutindo exatamente o mesmo contrato, mas elas não estão entrando na mesma negociação.
Quem possui um MACNA forte negocia de maneira diferente de quem precisa desesperadamente fechar o acordo.
Essa é uma das grandes lições que podemos extrair do caso CazéTV.
O Plano B também precisa ser negociado
Existe outro aspecto interessante. Quando muda o patrocinador, não muda apenas o nome da empresa que coloca dinheiro na mesa. Mudam também os interesses.
Uma empresa de apostas pode enxergar uma transmissão esportiva buscando audiência, aquisição de clientes, ativação da marca e conversão de apostadores.
Uma instituição financeira pode ter outros objetivos: presença de marca, relacionamento, posicionamento institucional, associação com esporte, produtos financeiros ou fortalecimento de sua presença junto a determinados públicos.
Portanto, não basta retirar uma proposta comercial da gaveta, trocar o logotipo e apresentá-la ao próximo interessado.
É preciso entender:
O que essa nova parte realmente valoriza?
Essa pergunta é fundamental na Negociação 7.0.
Negociadores medianos discutem posições. Negociadores preparados investigam interesses!
Escrito por
Alfredo Bravo
Professor, palestrante e escritor nas áreas de negociação, vendas, tecnologia e liderança. Recebeu premiação da Fundação Getúlio Vargas - FGV pela excelência no ensino e é autor do livro Gestão Estratégica de Vendas, publicado pela editora FGV. Durante oito anos foi professor e consultor da IBM no Curso de Negociação e Vendas HPS – High Performance Selling. Tem experiência profissional de mais de 20 anos em empresas como Bayer, White Martins, IBM e FGV. Atualmente é sócio diretor da Paragon.
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