O caso que viralizou esta semana sobre o rompimento societário entre os influenciadores Bruno Aiub (Monark) e Igor Coelho (Igor 3K), fundadores do Flow Podcast, mostra a importância da negociação e, principalmente, da elaboração de um bom contrato.
O imbróglio veio a público após a divulgação de detalhes do contrato firmado em 2022, quando Monark deixou o programa em razão de declarações polêmicas.
Não pretendo discutir quem está certo ou errado, nem qual seria o desfecho ideal para esse conflito. Meu objetivo é analisar o caso sob a ótica da Metodologia Negociação 7.0, dando especial atenção ao primeiro passo do método: o objeto da negociação, ou seja, o escopo daquilo que está sendo negociado. Neste caso, o próprio contrato firmado entre as partes.
O acordo comercial
Segundo informações divulgadas pela imprensa, ficou estabelecido que Igor 3K compraria a participação de 49,75% de Monark por R$ 10 milhões.
O pagamento seria realizado em 200 parcelas mensais de R$ 50 mil, o que representa um prazo de aproximadamente 17 anos para a quitação integral do valor.
O motivo do conflito
A disputa voltou ao centro das atenções porque Monark afirma que o acordo vem sendo descumprido. Segundo ele, os pagamentos teriam sido reduzidos para R$ 25 mil mensais.
Por outro lado, a defesa do Flow Podcast sustenta que a empresa enfrentou uma forte crise financeira após a saída do influenciador. Um aditivo contratual teria alterado as condições de pagamento para parcelas fixas de US$ 5 mil, valor que estaria sendo pago regularmente. Além disso, existe uma discussão envolvendo a transferência da marca registrada do Flow, que, segundo as partes, ainda não teria sido formalizada juridicamente.
Independentemente de quem tenha razão, o caso oferece excelentes lições para quem negocia contratos complexos.
Três falhas que chamam atenção
1. Preço nominal elevado, valor econômico reduzido
À primeira vista, R$ 10 milhões parece um excelente acordo. Entretanto, quando esse valor é dividido em 200 parcelas, sem juros e sem correção monetária, seu valor econômico sofre uma redução significativa ao longo do tempo.
Nesse ponto, faltou preparação e uma análise financeira mais cuidadosa. Uma revisão técnica do contrato provavelmente identificaria esse problema antes da assinatura.
2. Financiamento gratuito para o comprador
Na prática, Monark financiou a venda de sua própria participação societária durante quase 17 anos, sem qualquer remuneração pelo capital.
Esse é outro erro clássico de preparação. Em negociações desse porte, não basta discutir o valor total; é indispensável considerar o custo do dinheiro no tempo, a remuneração do capital e o risco envolvido.
3. Falta de proteção contratual
Talvez a principal fragilidade esteja na elaboração do contrato.
Um contrato bem estruturado deveria prever, entre outros pontos:
- atualização monetária;
- juros;
- garantias;
- multa por inadimplência;
- vencimento antecipado;
- cláusulas relacionadas à marca;
- regras de governança;
- mecanismos claros de execução.
É justamente aqui que encontramos a principal conexão com o primeiro passo da Negociação 7.0: o objeto da negociação.
Negociar não significa apenas chegar a um valor. Significa definir, com absoluta clareza, tudo aquilo que será entregue, protegido e executado ao longo da relação entre as partes.
Como costumo dizer em meus treinamentos:
“A falha na preparação é a preparação para a falha.”
A lembrança de Abílio Diniz
Esse caso me fez lembrar de um vídeo bastante conhecido do empresário Abílio Diniz, no qual ele comenta a negociação realizada com o grupo francês Casino, em 2005.
Ao analisar aquela experiência, Abílio afirma que repetiria a negociação, mas faria um contrato muito melhor.
Algumas reflexões desse depoimento merecem ser lembradas por qualquer profissional que participe de negociações complexas:
“O momento do contrato é o mais importante de tudo.”
“Tem que contratar bem e prever o máximo possível do que pode acontecer no futuro.”
“Se houver divergência, que ela aconteça no contrato, e não anos depois.”
“Um contrato malfeito é um desastre.”
“Tome o tempo que for necessário para elaborar um bom contrato.”
“Se não houver tempo para fazer um contrato corretamente, talvez seja melhor não fechar o negócio.”
São ensinamentos extremamente atuais e que continuam fazendo sentido em qualquer negociação empresarial.
Conclusão
O caso Monark x Igor 3K demonstra que uma negociação não termina quando as partes apertam as mãos.
Ela continua durante toda a execução do contrato.
Sob a ótica da Negociação 7.0, esse episódio reforça a importância do primeiro passo da metodologia: definir corretamente o objeto da negociação. Não pode existir dúvida sobre aquilo que está sendo negociado, nem sobre as responsabilidades, garantias, critérios financeiros e mecanismos de proteção previstos no contrato.
Negociar bem é importante. Mas negociar bem o contrato é ainda mais importante.
Sempre que possível, conte com uma segunda leitura técnica, envolva profissionais especializados e dedique tempo suficiente para revisar todas as cláusulas. Muitas vezes, o maior risco de uma negociação não está na conversa entre as partes, mas nas linhas do contrato que serão executadas nos anos seguintes.
Continue desenvolvendo sua capacidade de negociar contratos complexos
Casos como esse mostram que bons negociadores não se destacam apenas pela capacidade de argumentar, mas pela qualidade da preparação antes da assinatura de qualquer acordo.
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